1ª Confecom em debate no Instituto Casa Grande

05/05/2010

Debate Confecom 3

Ontem, 4 de maio, o Instituto Casa Grande Teve a honra de receber o professor Marcos Dantas, o jornalista e pesquisador Nilo Sérgio Gomes e o jornalista Jesus Chediak para debater o resultado da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (1ª Confecom). Logo na abertura do evento o presidente do ICG, o senador Saturnino Braga, que lembrou sua participação na CPI que investigou o envolvimento das Organizações Globo com o grupo estadunidense Time Wanner, e que devido a isso, até hoje seu nome não é publicado em nenhuma publicação desses grupos de comunicação. Assim, passou a palavra para os convidados para que estes expusessem os resultados obtidos coma realização da 1ª Confecom.

Debate Confecom 8

O professor Marcos Dantas foi o primeiro a falar. Ele foi um dos que esteve na Confecom e sua vocação na área de Comunicação Social é bastante conhecida. Marcos iniciou falando do quão importante é o papel da Comunicação em nossas vidas e do paradoxo que mora no fato de que poucos se dão conta disso. Num país que se diz democrático o povo deve exercer a soberania, ainda mais num governo tão popular como tem sido o governo Lula.

Dantas falou dos media em sua concepção industrial, produzindo conteúdo (leia-se ideologias) que beneficiam tão somente eles próprios, os donos dos meios. “A gente se vê por aqui”, isso não é falso – a sentença chave da midiatização social com o agravante de que o Brasil é um vazio legal para os latifundiários da mídia, sem regulamentação que traduza a legislação necessária para se manter as coisas funcionando bem.

Ele encerrou destacando que a Abert (Rede Globo) e a Federação Nacional dos Jornais (O Globo, Folha de São Paulo…) apostaram no fracasso da conferência com a arrogância de acreditar que o evento não teria relevância sem a participação deles. Segundo o professor, não houve exatamente uma rejeição por parte de todo o empresariado, houve um racha, e estes foram surpreendidos pelas mais de 30 mil pessoas que estiveram em Brasília falando por todo nós.

Debate Confecom 5

Nilo começou seu relato contando aquilo que mais lhe pegou de surpresa na conferência: por um momento ele se viu diante do que é de fato o Brasil. O Brasil que não está na TV. O Brasil questionador, indignado com o lixo que chega. O Brasil plural: negros, índios, quilombolas, caipiras, sem-terras, militâncias políticas, grupos ligados à igreja, grupos homoafetivos, mulheres e estudantes debatendo comunicação com um alto grau de crítica. Os índios, por exemplo, perguntaram cara-a-cara por que só aparecem na TV quando protagonizam tragédias ou como um bicho exótico.

Quando Nilo falou sobre a presença destes grupos me fez lembrar de imediato o artigo de Marc Augé no livro Sociedade Midiatizada (Mauad, 2006, Dênis de Moraes [org.], 100p) quando observa a explosão de identidades que se manifestam no gosto pela cultura local, na retomada da importância dos idiomas regionais, na invenção de uma nova forma de nacionalismo, ou mesmo quando a periferia se faz ouvir – e tudo isso num momento em que só se fala em globalização. “Este é o paradoxo do mundo contemporâneo, ao mesmo tempo unificado e dividido, uniformizado e diverso, ao mesmo tempo desencantado e reencantado”, conclui.

Nilo ainda chamou a Folha de São Paulo de velho panfleto mal escrito e falou sobre a Conferência, enquanto oportunidade de conversa, de um modo que me lembrou a concepção de Márcia Tiburi sobre pensar em conjunto: “muito mais complicado do que decorarA Crítica da Razão Pura‘ e ‘O Mundo Como Vontade e Representação‘, do Shopenhauer, é a gente conseguir conversar de verdade, enfrentando nossas ignorânicas e nossos supostos saberes".

Por último, falou severamente sobre a importância de acabar com a repressão às rádios comunitárias, defendendo a ideia de que “piratas” são os que se apropriam do espectro eletromagnético para defender interesses privados. E que o governo Lula é a melhor oportunidade para se fazer isso. “A Confecom deu um passo a frente na luta de classes na Comunicação”, encerrou.

Debate Confecom 4

Chediak foi o último palestrante e começou bem citando afirmação categórica de Cícero Sandroni: “no Brasil não existe liberdade de imprensa, mas sim, de empresa”. E completou: “vivemos a ditadura da mídia” – Que outra forma melhor para representar este cenário?
Agora, uma dúvida: ditadura da mídia ou do empresariado? Sim, porque segundo papai Roberto Marinhosagrado em jornal, meu filho, só existe o anunciante”. Há uma outra que gosto ainda mais, acho que do Paulo Autran: "teatro é a arte do ator; cinema é arte do diretor e novela é a arte do patrocinador".

Pois é, os grandes patrocinadores palpitam sobre o que deve ou não ir ao ar, afinal a emissora é o canal por onde seu produto está sendo divulgado e nenhuma companhia quer associá-lo a algo que seja ruim para os negócios. Do outro lado, para se ter uma ideia, um único comercial com 30 segundos de duração no horário do Jornal Nacional custa a bagatela de 300 mil reais. É muito dinheiro que rola por trás de tudo. Logo os grupos de mídia também se tornaram grandes corporações, parte do poderoso empresariado. E grandes grupos de mercado – mesmo os não ligados à área de Comunicação – fazem fusões bilionárias com grupos de mídia diariamente mundo afora.

Preciso recorrer novamente ao livro Sociedade Midiatizada para citar o professor e ensaísta Douglas Kellner (125p): “até 2002, dez corporações multinacionais gigantes, incluindo AOL Time Warner, Disney-ABC, General Electric-NBC, Viacom-CBS, News Corporation, Vivendi, Sony, Bertelsmann, AT&T e Liberty Media, controlavam a maior parte da produção de informação e entretenimento em todo o mundo. O resultado é menos competição e diversidade, mais controle corporativo dos jornais e do jornalismo, da televisão, rádio, filmes e outras mídias”.

Por fim, Chediak criticou a atitude da TV Brasil em passar programas da BBC e lamentou a mercantilização escancarada de serviços como educação e saúde. “O poder econômico transformou tudo em mercadoria”.

Debate Confecom 6

Departamento de Divulgação

Registro Fotográfico: Jornal Algo A Dizer

Parte do texto publicado por Maxsuel Siqueira, que é estudante de jornalismo e responsável pelo blog: Papo Livre

http://maxsuel-siqueira.blogspot.com/

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1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) e seus resultados em debate

03/05/2010

confecom

Nesta terça (4/5), às 19h, mais um debate no Casa Grande.

Dessa vez Marcos Dantas, professor da Escola de Comunicação da UFRJ, e Nilo Sérgio Gomes, jornalista, pesquisador e escritor, vão conversar sobre a 1ª Conferencia Nacional de Comunicação (1ª Confecom).

O local é o foyer do Teatro Oi Casa Grande (www.oicasagrande.com.br) que fica na Rua Afrânio de Melo Franco, 290, Leblon (tels.: 2511-0800 / 3114-3716 / 3114-3712).

MarcosDantas

Marcos Dantas foi subsecretário de Planejamento, Orçamento e Administração do Ministério das Comunicações em 2003 e 2004.

Nesse período, foi o redator das primeiras minutas do que viria a ser o decreto 4.901/2003, que criou o Sistema Brasileiro de TV Digital, assim como organizou as primeiras reuniões de lideranças científicas que resultariam na criação dos consórcios de pesquisa em TV digital.

Nilço Sergio Gomes

Nilo Sérgio Gomes acaba de lançar “Em busca da notícia”, pela Editora Multifoco, no qual detalha a trajetória do Jornal do Brasil dentro do contexto histórico, econômico, político, social e cultural da cidade do Rio de Janeiro.

Também está presente na coletânea “Parem as maquinas: jornalistas que valem mais de 50 contos”, da Casa Jorge Editorial.

Essa é uma iniciativa do Instituto Casa Grande (ICG) e do jornal de Cultura e Política Algo a Dizer (www.algoadizer.com.br).

Departamento de Divulgação