Colaborações

Sonho de uma noite no Leblon

Um dos piores fenômenos da vida pública brasileira é a descontinuidade. Se há uma democrática e desejável troca de governo, de vez em quando, não é obrigatório que os planos sejam totalmente mudados, “só porque o anterior era de outro partido ou tinha outro estilo“.

Há gloriosas exceções, é claro, como foi o caso de Juscelino Kubitschek. Ele sabia que, ao decidir pela construção de Furnas e Três Marias, não poderia inaugurá-las, pois o tempo de cada obra nunca seria inferior a sete anos. O mesmo aconteceu com Itaipú,  já em outra administração.

Aqui, há certas decisões que beiram a mediocridade. Tenho em mãos o Relatório das Atividades da Secretaria de Estado de Cultura, no período de 1º/01/2004 a 30/03/2006 (governo Rosinha Garotinho). Lá está, na página 14, uma bonita referência ao futuro (?) Centro Cultural do Leblon, um complexo a ser administrado pelo Estado. Não passou de um sonho, pois a atual administração Sérgio Cabral entendeu que a Zona Sul não precisa mais de equipamentos culturais – e melhor seria leiloar o local para fazer dinheiro. Triste opção.

Estudos cuidadosos e plantas arquitetônicas apontavam para aquele privilegiado ambiente (de 12 mil metros quadrados), entre outras, as seguintes atividades: oficina digital, oficinas de capoeira, circo, interpretação, bonecos, artes-plásticas, cinema, vídeo, literatura, jornal, galeria de arte, sala de jogos, brinquedoteca, central muitimídia, cantinho do contador de histórias, lojinha, biblioteca, cursos livres, sala de TV, auditório com 200 lugares, dois cineclubes, galeria de exposições e espaço da melhor idade. Além de Núcleos Avançados das Escolas Estaduais de Música (Villa-Lobos), de Teatro (Martins Pena) e de Artes Visuais do Parque Lage.

Imaginaram a riqueza cultural desse movimento? Ao mesmo tempo adquirimos o antigo Cine Imperator, localizado no bairro do Méier, para equilibrar a balança de oportunidades entre Zona sul e Zona Norte. O que havia de errado nisso tudo? Sem consultar os prováveis interessados, como é seu estilo, Sérgio Cabral determinou uma completa mudança de planos, como se afirmar que o Rio precisa mais de dinheiro e menos de Cultura. Difícil aceitar esse pensamento dada a formação do governador, que é filho de pais comprometidos com os seguimentos mais variados da Cultura fluminense. E muito respeitados por isso.

Não se espere um gesto de apoio às homenagens do centenário da morte do acadêmico fluminense Euclides da Cunha, natural de Cantagalo, que encantou o Brasil com sua obra “Os Sertões“. Para que ensinar isso aos nossos jovens? somos levados a esse raciocínio pela forma com que passou o centenário do maior de nossos escritores, o carioca Machado de Assis, em 2008. Nem uma orientação aos professores, nenhum livro distribuído, rigorosamente nada. No ano que vem será o centenário de nascimento da inesquecível escritora Rachel de Queiroz, que aqui viveu a maior parte de sua fecunda existência. Pode-se esperar algo desse governo? É difícil supor. São comentários de quem ama esta terra e deseja o melhor para os seus filhos. Bem que o PAC poderia se transformar também num “Plano de Ação Cultural”.

Arnaldo Niskier

Membro da Academia Brasileira de Letras e presidente do CIEE/Rio.

Rio de Janeiro, 14 de março de 2009.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: